Deputadas manifestam preocupação com projeto de ferrovia em Itaúna e região

Uma visita técnica com deputadas da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) percorreu uma área que será cortada pelos trilhos do Ramal Serra Azul, em Mateus Leme, na Grande BH. Com cerca de 32 quilômetros de extensão, a ferrovia também passará pelos municípios de Igarapé e São Joaquim de Bicas, já visitados pela comissão, além de Mário Campos e Itaúna, onde a “população também terá futuramente a oportunidade de relatar sua apreensão em novas visitas e audiências”, promete a deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT). Além de agricultores familiares, a visita, no último dia 27, contou com a participação do prefeito de Mateus Leme, Renilton Ribeiro, o Dr. Renilton (Republicanos), do promotor da cidade, Diego Rafael Dutra do Vale, e o coordenador de Fiscalização Ferroviária da ANTT, Aurélio Braga.

O projeto da Cedro Participações pretende escoar um fluxo anual estimado de 25 milhões de toneladas de minério de ferro para exportação, até o Porto de Itaguaí (RJ). O transporte hoje é concentrado no tráfego de caminhões, por rodovias estaduais, como as MG-050 e 431, e federais. A ferrovia já obteve um Decreto de Utilidade Pública da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o que autoriza os levantamentos necessários para desapropriação e indenização das áreas afetadas.

Junto à ferrovia, com início de obras previsto para novembro de 2029, mineradoras da região pretendem construir um mineroduto para escoar o aumento na produção de minério de ferro a partir de Itatiaiuçu, como mostrou o @viuitauna nesta quinta-feira (3).

Durante a visita das parlamentares, alguns moradores voltaram a denunciar invasão de propriedade, sobrevoos inesperados de drones, prospecções dos terrenos e pressão para que forneçam informações pessoais e documentos. “A informação sobre essa nova ferrovia só chega pra gente na forma de especulação e pressão. Só sabemos que é uma empresa grande que está por trás de tudo, a Cedro, mas dela mesmo não aparece ninguém para dar explicações. A novidade agora é a pressão por meio de drones, que a qualquer momento aparece sobrevoando sua casa”, relata Matheus Rezende, proprietário de uma fazenda em Alto da Boa Vista, na zona rural de Mateus Leme.

SEGURANÇA HÍDRICA A principal preocupação relacionada ao Ramal Serra Azul é com a segurança hídrica da Grande BH, já que o Sistema Serra Azul é alimentado pelas mesmas nascentes e cursos d’água que podem ser impactados pelas intervenções necessárias para instalar os trilhos.

A deputada estadual Bella Gonçalves (Psol) argumenta que o lado da Serra Azul onde será construída a ferrovia ainda está muito preservado. A construção de uma ferrovia, diz, afetaria mananciais hídricos e “uma economia de sustentabilidade muito importante” na região.

“A intenção real não é retirar carretas de minério da estrada, mas, sim, abrir um novo flanco de exploração mineral que vai afetar essas famílias que produzem comida para a Região Metropolitana”, alerta Bella.

Para Beatriz Cerqueira, não há como conciliar uma ferrovia com a agricultura familiar. Na visão da parlamentar o que está em jogo é a segurança hídrica e alimentar da Grande BH. “Essa ferrovia vai destruir vidas, é impossível concordar com isso”, rebate Cerqueira.

Podem ser atingidas, segundo a ANTT, faixas do terreno que vão de 20 a 150 metros de cada lado dos trilhos. Mas o traçado definitivo ainda não foi revelado, o que tem tirado o sono de quem se surpreende com a visita de funcionários de empresas contratadas pela Cedro. Segundo apurado pela comissão, o traçado vai acompanhar um dos lados da Serra de Igarapé, uma das extensões da Serra do Espinhaço, já afetada pela atividade minerária.

“Eu não quero indenização, quero continuar com a minha vida, trabalhando no que sempre fiz”, aponta Márcio Júlio Ferreira, proprietário do Sítio Santa Rosa, que colhe diariamente milhares de espécies de flores, de cores variadas, que vão para floriculturas da capital e até para o Mercado Central.

Segundo o agricultor, Mateus Leme, Carmópolis de Minas e Barbacena são os principais pontos desse tipo de produção no Estado. Ele ressalta que a beleza delicada das flores não combina com falta d’água e a poeira do transporte de minério. “Eu levei anos para que esse solo dê tudo o que a flor precisa para exibir a beleza da sua cor. Eu levo no mínimo quatro meses para conseguir colher uma delas. Mas o minério está prontinho, basta cavar e destruir tudo. É muito injusto. Se minha plantação acabar, onde vou trabalhar? Para eles (as mineradoras) é que, com certeza, não vou”, diz Márcio.

ESPERA POR SOLUÇÃO O presidente da Cooperativa Metropolitana de Agricultores Familiares de Mateus Leme (Comale), Henrique Saraiva, fez coro com a preocupação dos cooperados, a de que nada de bom pode sair do futuro Ramal Serra Azul. A entidade atende 320 produtores de 15 municípios da região. “O impacto será, com certeza, muito ruim, mas ainda temos esperança de que, com a ajuda da Assembleia, esse problema seja resolvido da melhor maneira possível”, comentou.

Na roda de conversa que se formou ali, os produtores exigiram mais informações sobre o projeto até para que possam se posicionar e negociar com mais transparência.

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