O estudo da Fecomércio-MG também aponta elevada concentração geográfica das importações relacionadas à moda. Em julho de 2026, a China respondeu por 51,2% do valor total importado nos grupos analisados e por 57,8% das quantidades. A presença chinesa é ainda maior em algumas categorias. Nos tecidos, segmento que já puxou a indústria têxtil em Itaúna, a China respondeu por 70,3% do valor e 79,7% da quantidade importada. Em vestuário, representou 43,9% do valor, mas impressionantes 98,4% da quantidade. Nos acessórios, a China respondeu por 53,7% do valor importado. Entre os calçados, Vietnã e Indonésia aparecem nas primeiras posições.
Os números demonstram que a concorrência internacional enfrentada pela cadeia brasileira da moda está concentrada em um número reduzido de países, sobretudo asiáticos. Segundo o estudo, essa característica torna o mercado doméstico mais sensível a alterações nas condições de importação.
A análise da Fecomércio MG destaca que a discussão em torno da chamada “taxa das blusinhas” envolve mais do que arrecadação ou preço final ao consumidor. O tema alcança questões relacionadas à neutralidade concorrencial, à competitividade das empresas estabelecidas no Brasil, aos investimentos e ao mercado de trabalho.

O estudo também reproduz dados apresentados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), segundo os quais a redução das assimetrias tributárias entre produtos nacionais e importados esteve associada ao aumento das vendas em cinco dos dez segmentos avaliados, com impacto médio estimado em R$ 3 bilhões mensais no varejo. A entidade apontou ainda potencial de criação de 98,9 mil empregos formais entre agosto de 2024 e dezembro de 2025, incluindo aproximadamente 2,8 mil postos mensais em tecidos, vestuário e calçados, sem identificação de pressão inflacionária adicional decorrente da alteração tributária analisada.
“O ponto central trazido pelos dados é a dimensão econômica dessa discussão. Uma alteração que parece estar restrita às compras de pequeno valor pode alcançar vendas, investimentos e empregos quando observada em escala. O desafio é compreender esses efeitos de maneira ampla, considerando consumidor, comércio e toda a estrutura produtiva que existe no país”, afirma a economista da Fecomércio MG, Fernanda Gonçalves.
E MAIS…
Estudo não dá evidências de causa e efeito sobre redução de tributos
A Fecomércio-MG ressalta que os resultados encontrados não permitem atribuir exclusivamente às mudanças tributárias a recuperação registrada em 2024 e 2025 ou a retração observada em 2026. O desempenho do varejo também é influenciado pela renda das famílias, nível de endividamento, condições de crédito, sazonalidade, câmbio, estratégias comerciais e outros fatores. Ainda assim, a combinação entre a evolução das vendas, o comportamento das remessas internacionais e a concentração da origem dos produtos importados constitui, segundo o estudo, um conjunto de evidências descritivas coerente com a hipótese de que alterações na tributação modificam a atratividade relativa dos produtos estrangeiros e, consequentemente, a pressão concorrencial enfrentada pelo comércio nacional.
A análise conclui que os resultados observados são compatíveis com a hipótese de que a cobrança iniciada em agosto de 2024 tenha contribuído para reduzir temporariamente a vantagem de preço dos produtos importados, favorecendo a competitividade do varejo nacional. Em 2026, por outro lado, a flexibilização tributária coincidiu com o aprofundamento das perdas do segmento e com uma nova aceleração das importações, sugerindo o restabelecimento de parte da pressão concorrencial exercida pelas plataformas internacionais.
