Os dados da Pesquisa Mensal do Comércio da Fecomércio-MG mostram que tecidos, vestuário e calçados apresentaram comportamento significativamente mais volátil do que o varejo em geral entre 2024 e 2026. O estudo “O impacto da taxação de pequenos valores no varejo de moda”, produzido pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência & Pesquisa da federação, destaca que o enfraquecimento já havia começado antes da flexibilização tributária de 2026. Entretanto, o aprofundamento das perdas nos meses seguintes é compatível com a hipótese de que o aumento da atratividade dos produtos importados tenha ampliado a pressão concorrencial sobre o varejo nacional.
A moda representa aproximadamente 5,2% dos estabelecimentos mineiros, frente a 4,4% no Brasil. Entre os principais polos estão o vestuário da Grande Belo Horizonte, com cerca de 23 mil empregos diretos; o setor calçadista de Nova Serrana, com aproximadamente 17 mil; o vestuário de Divinópolis, com 12 mil; além de polos em São João Nepomuceno, Jacutinga, Muriaé e Juiz de Fora.

Em Minas Gerais, o segmento iniciou 2024 em forte retração. Em janeiro daquele ano, o indicador de volume de vendas acumulado em 12 meses registrava queda de 12,7%, enquanto o comércio varejista mineiro apresentava crescimento de 2,9%. A recuperação ocorreu progressivamente ao longo dos meses. A retração diminuiu até chegar a 3,5% em agosto, passou para resultado positivo de 1% em novembro e encerrou dezembro com crescimento de 4,2%, acima dos 3,3% observados no varejo mineiro como um todo.
O desempenho positivo ganhou força em 2025. Em maio e junho, por exemplo, o segmento de tecidos, vestuário e calçados registrou crescimento de 6,6% em Minas Gerais, enquanto os resultados nacionais foram de 5% e 5,5%, respectivamente.
Em 2026, porém, o cenário voltou a mudar. Depois de iniciar o ano praticamente estável, com crescimento de 0,1% em janeiro, a atividade passou a registrar sucessivas quedas. Em junho, a retração acumulada em 12 meses chegou a 4,4% em Minas Gerais, enquanto, no Brasil, o recuo foi de 1,2%.
“Os números mostram dois movimentos que merecem ser analisados em conjunto: de um lado, a forte retomada das remessas internacionais; de outro, a perda de força de um segmento altamente exposto à concorrência por preço. O estudo não estabelece uma relação automática de causa e efeito, mas apresenta evidências que ajudam a compreender a dinâmica competitiva enfrentada pelo comércio brasileiro”, avalia a economista da Fecomércio-MG, Fernanda Gonçalves.
PARTICIPAÇÃO ACIMA DA MÉDIA NACIONAL Os efeitos são particularmente relevantes em Minas Gerais porque a cadeia da moda possui participação superior à observada na média nacional. Considerando especificamente o comércio, o segmento responde por cerca de 15% dos estabelecimentos comerciais de Minas Gerais, contra aproximadamente 13,6% na média nacional. O estado também reúne 18 Arranjos Produtivos Locais (APLs) ligados à moda, distribuídos por 87 municípios, que concentram aproximadamente 67 mil empresas formais e cerca de 80 mil empregos diretos.
Essa estrutura envolve comércio varejista, confecções, calçadistas, indústria têxtil, fornecedores e pequenos negócios, formando uma cadeia produtiva altamente integrada.
Por essa característica, períodos de expansão beneficiam diferentes elos da economia, enquanto momentos de retração também tendem a disseminar seus efeitos sobre produção, distribuição, comércio e emprego. “Em Minas Gerais, falar de moda significa falar de milhares de pequenos negócios e de dezenas de milhares de postos de trabalho espalhados por diferentes regiões. O desempenho de uma loja está conectado à confecção, à indústria têxtil, ao calçado, aos fornecedores e a uma extensa rede de serviços. Por isso, oscilações nesse mercado produzem efeitos que vão muito além do varejo”, ressalta Gonçalves.
